“O ANO” DERROTA TROPA DE
ELITE
A comissão que escolheu o filme “O
Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”
como representante brasileiro no Oscar derrotou
“Tropa de Elite” por unanimidade,
disse a editora de Cultura da Carta Capital,
Ana Paula Sousa, em entrevista a Paulo Henrique
Amorim nesta quarta-feira, dia 26 (aguarde o
áudio).
Ana Paula Sousa, que integrou a comissão,
classifica “O Ano” como um “filme
interessante, um bom filme”. Ela disse
ainda que o longa-metragem será competitivo
na corrida pela indicação ao Oscar
porque tem elementos que historicamente agradam
à Academia, como as cenas com crianças
e com viés humanista.
Para Ana Paula Sousa, "O Ano" é
um filme competitivo. "É um filme
que pode ter algum lobby lá fora porque
ele tem já uma distribuidora estrangeira
junto", afirmou a jornalista.
Sobre “Tropa de Elite”, Ana Paula
Sousa disse que o filme “se tornou mais
um acontecimento social do que cinematográfico”.
A comisão recebeu uma lista com 18 filmes,
mas apenas três foram mais discutidos:
"Tropa de Elite", "O céu
de Suely" e "O Ano em que Meus Pais
Saíram de Férias".
A jornalista Ana Paula Sousa venceu o Prêmio
Comunique-se 2007 na categoria Jornalista de
Cultura.
Leia a íntegra da entrevista
com Ana Paula Sousa, da Carta Capital:
Paulo Henrique Amorim –
Eu vou conversar agora com Ana Paula Souza,
editora de cultura da revista Carta Capital
que acaba de participar do júri que escolheu
o filme brasileiro que vai disputar o Oscar.
Como vai Ana Paula, tudo bem?
Ana Paula Souza – Tudo
bem Paulo Henrique.
Paulo Henrique Amorim –
Tudo bem. Antes de mais nada, parabéns
pelo prêmio que você acabou de receber.
Ana Paula Souza – Puxa,
muito obrigada.
Paulo Henrique Amorim –
E você acaba de fazer parte de um conselho
de jurados que escolheu o filme do Cao Hamburger
para representar o Brasil no Oscar, não
é isso? "O Ano em Que Meus Pais
Saíram de Férias".
Ana Paula Souza – Exatamente.
Na verdade eu estou aqui no aeroporto Santos
Dumont, acabamos de sair da reunião e
da entrevista coletiva sobre esse filme. Éramos
cinco jurados, há um sexto jurado que
é o Domingo Barreto que não pode
comparecer porque teve que viajar para os Estados
Unidos, mas votou pelo telefone. Mas acabou
sendo uma escolha por unanimidade.
Paulo Henrique Amorim –
Ah é! Que interessante.
Ana Paula Souza – Três
filmes foram discutidos. O "Tropa de Elite",
"O Céu de Suely", e "O
Ano em que Meus Pais Saíram de Férias".
A gente recebeu uma lista de 18 filmes, fomos
passando um por um. Alguns filmes ninguém
se propôs a discutir e esses três,
na verdade, ficaram ali no páreo, mas
a decisão final que seria até
fácil, porque foi unânime, foi
o Ano em que Meus Pais Saíram de Férias.
Paulo Henrique Amorim –
Agora, aqui no final houve uma pressão
muito forte pelo "Tropa de Elite",
não é isso?
Ana Paula Souza – Olha,
na entrevista coletiva foi realmente impressionante.
A única pergunta que se fazia era porque
não foi escolhido o "Tropa de Elite".
E eu acho que caberia também a pergunta
porque não foi escolhido "O Céu
de Suely". Eu tenho a impressão
de que o "Tropa de Elite" se tornou
um acontecimento social muito mais até
do que um acontecimento cinematográfico.
Até porque, vale lembrar que o "Tropa
de Elite" nem sequer estreou. Esse filme
estreou, na verdade, em uma única sala
em Jundiaí, no interior de São
Paulo, num só horário, para cumprir
a exigência. Então, as pessoas
viram o filme em DVD, o que realmente trás
uma série de discussões importantes
para a sociedade brasileira, desde as discussões
do filme até a história da pirataria.
E a imprensa se comoveu com esse fato. Curiosamente
no júri não houve, sequer, polêmica
em relação ao "Tropa de Elite".
Acho que os ingredientes do filme, na condição,
não pareciam ingredientes nem que fosse
um filme para representar o Brasil e, entre
alguns jurados, nem que "Tropa de Elite"
seja um grande filme. Ele pode ser um filme
importante, mas não necessariamente um
grande filme.
Paulo Henrique Amorim –
Não necessariamente um grande filme.
E quais são as virtudes do "Ano
em que Meus Pais Saíram de Férias",
na sua opinião?
Ana Paula Souza – É
um filme que se a gente pensar na academia de
Hollywood que, em geral são pessoas já
de uma certa idade e fica uma coisa engraçada.
Essa categoria é uma categoria a parte
no Oscar. Então, as pessoas tendem a
assistir uma série de filmes estrangeiros.
Geralmente essas pessoas têm que ter tempo
então, não raro, são profissionais
já aposentados do cinema e que, historicamente
se a gente pegar a lista dos filmes que ganham,
dos filmes que ficam entre os cinco, são
filmes com viés humanista, são
muitas vezes filmes com criança, e "O
Ano em que Meus País Saíram de
Férias" tem tudo isso. Eu, pessoalmente,
acho "O Ano em que Meus Pais Saíram
de Férias" apenas um filme interessante,
um bom filme, mas acho também que é
o filme que teria maiores chances. Essa decisão
da comissão ela leva em conta duas coisas:
tem que ser um bom filme, mas dentre os bons
filmes tem que ser um filme também que
seja minimamente adequado à academia.
Ele é um filme correto, bem atuado, uma
narrativa acadêmica que também
é bem provável que agrade a academia.
É um filme que pode ter algum lobby lá
fora porque ele tem já uma distribuidora
estrangeira junto.
Paulo Henrique Amorim –
Qual é, hein?
Ana Paula Souza – Ele,
aqui no Brasil, teve a participação
da Columbia. Eu soube agora que ele teria, como
divulgador lá fora, o mesmo divulgador
do Labirinto do Fauno, que é aquele filme
espanhol.
Paulo Henrique Amorim –
É um filme competitivo.
Ana Paula Souza – Eu
acredito que sim.
Paulo Henrique Amorim –
Ana Paula, eu percebo que você está
no aeroporto e devem estar te chamando aí,
não é isso?
Ana Paula Souza – Você
ouviu, acho que era o número do meu vôo.
Não vai dar nem para enganar agora e
falar que vou chegar em São Paulo só
as oito, eu vou ter que dizer a que horas eu
cheguei.
Paulo Henrique Amorim –
Ótimo! Olha, e parabéns de novo
pelo seu prêmio (Comunique-se). Por jornalismo
de Cultura.