26/09/2007 16h14

“O ANO” DERROTA TROPA DE ELITE

A comissão que escolheu o filme “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” como representante brasileiro no Oscar derrotou “Tropa de Elite” por unanimidade, disse a editora de Cultura da Carta Capital, Ana Paula Sousa, em entrevista a Paulo Henrique Amorim nesta quarta-feira, dia 26 (aguarde o áudio).

Ana Paula Sousa, que integrou a comissão, classifica “O Ano” como um “filme interessante, um bom filme”. Ela disse ainda que o longa-metragem será competitivo na corrida pela indicação ao Oscar porque tem elementos que historicamente agradam à Academia, como as cenas com crianças e com viés humanista.

Para Ana Paula Sousa, "O Ano" é um filme competitivo. "É um filme que pode ter algum lobby lá fora porque ele tem já uma distribuidora estrangeira junto", afirmou a jornalista.

Sobre “Tropa de Elite”, Ana Paula Sousa disse que o filme “se tornou mais um acontecimento social do que cinematográfico”.

A comisão recebeu uma lista com 18 filmes, mas apenas três foram mais discutidos: "Tropa de Elite", "O céu de Suely" e "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias".

A jornalista Ana Paula Sousa venceu o Prêmio Comunique-se 2007 na categoria Jornalista de Cultura.


Leia a íntegra da entrevista com Ana Paula Sousa, da Carta Capital:

Paulo Henrique Amorim – Eu vou conversar agora com Ana Paula Souza, editora de cultura da revista Carta Capital que acaba de participar do júri que escolheu o filme brasileiro que vai disputar o Oscar. Como vai Ana Paula, tudo bem?

Ana Paula Souza – Tudo bem Paulo Henrique.

Paulo Henrique Amorim – Tudo bem. Antes de mais nada, parabéns pelo prêmio que você acabou de receber.

Ana Paula Souza – Puxa, muito obrigada.

Paulo Henrique Amorim – E você acaba de fazer parte de um conselho de jurados que escolheu o filme do Cao Hamburger para representar o Brasil no Oscar, não é isso? "O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias".

Ana Paula Souza – Exatamente. Na verdade eu estou aqui no aeroporto Santos Dumont, acabamos de sair da reunião e da entrevista coletiva sobre esse filme. Éramos cinco jurados, há um sexto jurado que é o Domingo Barreto que não pode comparecer porque teve que viajar para os Estados Unidos, mas votou pelo telefone. Mas acabou sendo uma escolha por unanimidade.

Paulo Henrique Amorim – Ah é! Que interessante.

Ana Paula Souza – Três filmes foram discutidos. O "Tropa de Elite", "O Céu de Suely", e "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias". A gente recebeu uma lista de 18 filmes, fomos passando um por um. Alguns filmes ninguém se propôs a discutir e esses três, na verdade, ficaram ali no páreo, mas a decisão final que seria até fácil, porque foi unânime, foi o Ano em que Meus Pais Saíram de Férias.

Paulo Henrique Amorim – Agora, aqui no final houve uma pressão muito forte pelo "Tropa de Elite", não é isso?

Ana Paula Souza – Olha, na entrevista coletiva foi realmente impressionante. A única pergunta que se fazia era porque não foi escolhido o "Tropa de Elite". E eu acho que caberia também a pergunta porque não foi escolhido "O Céu de Suely". Eu tenho a impressão de que o "Tropa de Elite" se tornou um acontecimento social muito mais até do que um acontecimento cinematográfico. Até porque, vale lembrar que o "Tropa de Elite" nem sequer estreou. Esse filme estreou, na verdade, em uma única sala em Jundiaí, no interior de São Paulo, num só horário, para cumprir a exigência. Então, as pessoas viram o filme em DVD, o que realmente trás uma série de discussões importantes para a sociedade brasileira, desde as discussões do filme até a história da pirataria. E a imprensa se comoveu com esse fato. Curiosamente no júri não houve, sequer, polêmica em relação ao "Tropa de Elite". Acho que os ingredientes do filme, na condição, não pareciam ingredientes nem que fosse um filme para representar o Brasil e, entre alguns jurados, nem que "Tropa de Elite" seja um grande filme. Ele pode ser um filme importante, mas não necessariamente um grande filme.

Paulo Henrique Amorim – Não necessariamente um grande filme. E quais são as virtudes do "Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", na sua opinião?

Ana Paula Souza – É um filme que se a gente pensar na academia de Hollywood que, em geral são pessoas já de uma certa idade e fica uma coisa engraçada. Essa categoria é uma categoria a parte no Oscar. Então, as pessoas tendem a assistir uma série de filmes estrangeiros. Geralmente essas pessoas têm que ter tempo então, não raro, são profissionais já aposentados do cinema e que, historicamente se a gente pegar a lista dos filmes que ganham, dos filmes que ficam entre os cinco, são filmes com viés humanista, são muitas vezes filmes com criança, e "O Ano em que Meus País Saíram de Férias" tem tudo isso. Eu, pessoalmente, acho "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias" apenas um filme interessante, um bom filme, mas acho também que é o filme que teria maiores chances. Essa decisão da comissão ela leva em conta duas coisas: tem que ser um bom filme, mas dentre os bons filmes tem que ser um filme também que seja minimamente adequado à academia. Ele é um filme correto, bem atuado, uma narrativa acadêmica que também é bem provável que agrade a academia. É um filme que pode ter algum lobby lá fora porque ele tem já uma distribuidora estrangeira junto.

Paulo Henrique Amorim – Qual é, hein?

Ana Paula Souza – Ele, aqui no Brasil, teve a participação da Columbia. Eu soube agora que ele teria, como divulgador lá fora, o mesmo divulgador do Labirinto do Fauno, que é aquele filme espanhol.

Paulo Henrique Amorim – É um filme competitivo.

Ana Paula Souza – Eu acredito que sim.

Paulo Henrique Amorim – Ana Paula, eu percebo que você está no aeroporto e devem estar te chamando aí, não é isso?

Ana Paula Souza – Você ouviu, acho que era o número do meu vôo. Não vai dar nem para enganar agora e falar que vou chegar em São Paulo só as oito, eu vou ter que dizer a que horas eu cheguei.

Paulo Henrique Amorim – Ótimo! Olha, e parabéns de novo pelo seu prêmio (Comunique-se). Por jornalismo de Cultura.