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| MPF
quer que coronel Ustra devolva dinheiro
pago às famílias de mortos
e desaparecidos políticos à
União |
PARA TORTURADA JUSTIÇA COMEÇA
A CHEGAR AOS TORTURADORES
Uma ação civil pública
do Ministério Público Federal
pede que os coronéis do Exército
Carlos Alberto Brilhante Ustra e Audir Santos
sejam declarados como torturadores no período
da ditadura militar e que a Justiça os
obrigue a ressarcir a União o dinheiro
pago com indenizações pagas às
famílias de mortos e desaparecidos políticos
(clique
aqui para ler).
Ao todo, a União pagou R$ 7 milhões
a 64 famílias de mortos e desaparecidos
políticos entre 1970 e 1976, período
em que Ustra e Santos comandaram o DOI (Destacamento
de Operações de Informações).
Amélia Telles é membro da Comissão
de Mortos e Desaparecidos Políticos.
Ela foi torturada pelo coronel Ustra entre o
final de 1972 e o início de 1973 por
fazer parte do PCB (Partido Comunista Brasileiro).
Amélia Telles disse em entrevista a
Paulo Henrique Amorim nesta sexta-feira, dia
16, que a ação do MPF é
importante para a luta dos direitos humanos
no Brasil.
“Eu acho extremamente importante que
o Ministério Público, na defesa
dos direitos humanos do povo brasileiro, tome
essa iniciativa. Porque é preciso haver
uma reflexão da história desse
país, uma reflexão da tortura
institucionalizada que foi na época da
ditadura militar, para que isso nunca mais aconteça
no nosso país”, disse Amélia
Telles.
Amélia Telles disse que o coronel Ustra
a torturou porque queria que ela repassasse
aos militares nomes e contatos de outras pessoas
ligadas ao PCB.
“Eu trabalhava na imprensa do partido
e por isso eu fui presa, torturada para denunciar
os contatos que eu teria como militante da imprensa,
contatos importantes para o partido. Quer dizer
que eu deveria entregar os nomes das pessoas
com as quais eu me relacionava para que eles
prendessem também essas pessoas ou para
que eles torturassem também essas pessoas”,
disse Amélia Telles.
Amélia Telles é uma das autoras
de uma Ação Declaratória
que pede que o coronel Ustra seja declarado
torturador. Ela disse que o objetivo da ação
é fazer com que o Estado brasileiro reconheça
que, durante a ditadura militar, tinha em seus
quadros de funcionários o coronel Ustra
como um torturador.
A Ação Declaratória contra
o coronel Ustra corre no Fórum de São
Paulo e está nas alegações
finais. Amélia Telles acredita que a
decisão da Justiça deve sair em
dois ou três meses.
Leia a íntegra da entrevista
com Amélia Telles:
Paulo Henrique Amorim –
Eu vou conversar agora com Amélia Telles.
Ela é da Comissão de Mortos e
Desaparecidos Políticos. Amélia,
você certamente viu essa notícia
de que o Ministério Público Federal
resolveu processar o coronel Ustra e mais um
outros suspeito de ter sido torturador e obriga-los
a devolver à União os recursos
que a União pagou às vítimas
de tortura durante os anos militares. Você
viu isso?
Amélia Telles –
Sim. Eu estou a par dessa ação
promovida pelo Ministério Público
Federal, não é isso?
Paulo Henrique Amorim –
Isso.
Amélia Telles –
Eu estou a par sim.
Paulo Henrique Amorim –
Você foi torturada pelo Coronel Ustra?
Amélia Telles –
Eu fui torturada pelo coronel Ustra. Eu acho
extremamente importante que o Ministério
Público, na defesa dos direitos humanos
do povo brasileiro, tome essa iniciativa. Porque
é preciso haver uma reflexão da
história desse país, uma reflexão
da tortura institucionalizada que foi na época
da ditadura militar, para que isso nunca mais
aconteça no nosso país. E eu fui
torturada sim pelo coronel Ustra, inclusive
eu sou uma das autoras de uma Ação
Declaratória, junto ao Fórum de
São Paulo, para que seja declarado o
coronel Ustra como torturador, que seja declarado
que o coronel Ustra é um torturador ou
foi um torturador.
Paulo Henrique Amorim –
Você foi torturada quando e sob que argumento?
Amélia Telles –
Eu fui torturada no final de 1972, início
de 1973 porque eu era uma militante comunista...
Paulo Henrique Amorim –
De que organização?
Amélia Telles –
Era do Partido Comunista do Brasil, que era
um partido ilegal na época, era um partido
que vivia clandestino, porque a ditadura proibiu
os partidos políticos. E eu trabalhava
na imprensa do partido e por isso eu fui presa,
torturada para denunciar os contatos que eu
teria como militante da imprensa, contatos importantes
para o partido. Quer dizer que eu deveria entregar
os nomes das pessoas com as quais eu me relacionava
para que eles prendessem também essas
pessoas ou para que eles torturassem também
essas pessoas. Foi nessa situação
que eu fui presa e torturada.
Paulo Henrique Amorim –
Em que pé está sua Ação
Declaratória contra o coronel Ustra?
Amélia Telles –
A nossa ação já está
nas alegações finais, já
foram apresentadas nessa semana as alegações
finais, tanto da parte da autoria da ação,
quanto da parte dos acusados, ou melhor, o acusado,
que é o Coronel. Então acredito
que em dois ou três meses já estará
concluída essa Ação Declaratória.
Paulo Henrique Amorim –
E se o coronel Ustra for condenado nessa Ação
Declaratória, o que vai acontecer com
ele?
Amélia Telles –
Ele vai passar a ter um título de torturador.
É uma declaração de que
ele é um torturador. Essa é a
meta final dessa ação. É
uma Ação Declaratória.
O Estado reconhece que dentre os quadros dos
seus funcionários teve o coronel Ustra
como torturador.
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