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| Maia:
“Dilma 2010 !” |
O perfil de um DEMocrata
Paulo Henrique Amorim
Máximas e Mínimas 1122
. O senador Agripino Maia, do DEM-RN, vai entrar
para a história como o homem que lançou
a candidatura de Dilma Rousseff à Presidência
da República – e, quem sabe, será
o responsável pela eleição
dela ?
. O senador Maia tem uma biografia política
polêmica.
. Por exemplo: recomenda-se não usar
as seguintes expressões quando se participar
de um encontro social com o senador: “rabo
de palha”, “Ganhe Já”,
“Dumbo Publicidade”, “A Voz
do Seridó” e “Rádio
Curimatau de Nova Cruz”.
. Com a autorização da “Caros
Amigos”, reproduzimos aqui trechos da
reportagem de Léo Arcoverde e Raquel
de Souza, publicada na edição
de abril da revista.
. Começa assim: “Os rabos de palha
de um filhote da ditadura – o senador
Agripino Maia é apresentado pela mídia
grande como um ícone da moral, sempre
entrevistado para denunciar as mazelas do Governo
Lula e pontificar sobre ética política.
Seu passado, porém, não abona.”
Leia alguns trechos da reportagem da Caros
Amigos:
Ajuda dos milicos: o voto camarão
Voto vinculado, invenção
da ditadura, que o povo apelidou de voto camarão:
o eleitor só podia votar em candidatos
de um mesmo partido, sob pena de anular o voto.
Era o que José Agripino precisava nas
eleições de 1982 para governador.
Nem mesmo a popularidade de Aluízio Alves
conseguiu vencer a estrututra montada em torno
do jovem prefeito. Coordenador da campanha de
Aluízio, o jornalista Ticiano Duarte
detalha o que pesou a favor do adversário:
- José Agripino foi beneficiado
pelo voto camarão. O PDS tinha tudo,
estrutura maior, poder, dinheiro. Eram quatro
deputados do nosso lado contra vinte e tantos
do outro; eram seis, oito prefeitos contra noventa.
Cem vereadores contra quinhentos. Aluízio
venceu em Natal por cem votos, mas perdeu feio
no interior.
José Agripino Maia toma
posse em 15 de março de 1983 e, dali
a dois anos, será flagrado numa reunião
com auxiliares e 120 prefeitos, acertando o
que constituiria a maior fraude eleitoral da
história do Rio Grande do Norte.
Dessa vez, José Agripino
queria eleger prefeita de Natal sua secretaria
de Promoção Social, Wilma Maia,
em 1985. Tinham como adversário o deputado
estadual Garibaldi Alves Filho (PMDB), sobrinho
de Aluízio e hoje presidente do Senado.
O plano foi todo armado em quatro reuniões,
no Centro de Convenções, Zona
Sul de Natal.
José Agripino simplesmente
instruiu os prefeitos a comprar títulos
eleitorais, distribuir presentes, incentivar
tumultos nos processos de votação
e apuração e, ainda, usa veículos
oficiais com placas frias para transportar eleitores
do interior para a capital. O caso ficou conhecido
como Escândalo Rabo-de-Palha, rótulo
fornecido pelo próprio José Agripino,
que ao final de uma reunião pediu:
- Não podemos deixar rabo-de-palha.
Caros Amigos reproduz aqui parte
da conversa. Laudo do Instituto Nacional de
Criminalística, da Polícia Federal,
diz que a voz é do governador.
José Agripino -Os pobres
estão indecisos. É em cima desse
povo que você tem que atuar. Com uma feirazinha,
com um enxoval, com umas coisinhas.
Iberê Ferreira de Souza (secretário)
- O povo mais pobre que não se compromete,
troca o voto por qualquer coisa. Botar o milhp
no bolso, porque sem milho não funciona.
Álvaro Alberto (financiador)
- O meu jogo é aberto. Se é preciso
comprar os títulos, vamos comprar. Te
que gastar dinheiro, tem que chegar com o dinheiro.
O conceito de democracia de Agripino
é peculiar, não é adequado
a verbete de dicionário, serve apenas
a ele e seus apaniguados:
- Vamos indicar ma área
para vocês trabalharem e inclusive nas
áreas modestas, de eleitores indecisos
que são sensíveis a uma conversa
e a uma negociação, que será
feita por nós ou por eles. Democracia
é isto!
O conceito de terrorista também:
- E aí eu quero fazer um
lembrete: importante não é a quantidade
de pessoal, é a qualidade das pessoas,
porque, se a gente traz uma mocinha, como eu
vi na eleição de 82, mocinhas
inexperientes, elas ocupam uma função,
não dão conta do recado e perdem
fácil para o comunista, o terrorista,
que vai se impor, intimidar e ganhar no grito.
(...)
Lourismo: uma questão de
bom gosto racial
Em 2006, o jornalista e escritor
Orlando Rangel Rodrigues, o Caboré, lançou
Rabo-de-Palha: o Jabá de Jajá.
Caboré é um tipo atuante, opositor
da ditadura militar e crítico feroz das
oligarquias. Ganhou notoriedade no Seridó
nos anos 60 e 70 ao denunciar, na Rádio
Rural, crimes de pistolagem. Seu livro narar
o Escândalo Rabo-de-Palha de maneira engraçadíssima
e traz mais curiosidades sobre José Agripino.
Uma delas é o "lourismo". Define
o autor na página 89:
"... era uma fauna que definia
os mortais de puro sangue do governo José
Agripino. (...) criaram a República de
Jacumã, praia do litoral norte potiguar.
Belas mansões que abrigavam, em veraneios,
somente pessoas estritamente do convívio
palaciano: uma elite de políticos de
grandes currais eleitorais e empresários
bons de nota".
Segundo Caboré, o lourismo
não aceita, por exemplo, Lula na preseidência
da República. Peço para ele comentar
estas declarações do agropecuarista
José Bezerra de Araújo Júnior,
suplente de José Agripino, em entrevista
para a Tribuna do Norte:
"Collor foi o governo menos
corrupto que o país já teve"
e "Eu acho que o Lula é um populista
analfabeto. Discrimino mesmo: é analfabeto!"
- Taí um exemplo do que
faz o lourismo. Nunca quiseram ver Lula presidente.
São contra metalúrgico, contra
nero, contra pobre, contra analfabeto. Acham
que não têm direito a nada. Convivo
com muita gente do ourismo. Já ouvi vários
afirmarem ser contra Barack Obama. Tem algum
motivo dessa casta, dessa elite ser contra Barack
Obama a não ser pelo fato de ele ser
negro. Hein?
Com a corda toda
De volta ao governo em março
de 1991 - após derrotar o primo e ex-aliado
Lavoisier -, José Agripino deixa o cargo
em abril de 1994 para concorrer mais uma vez
ao Senado. Volta a Brasília sem que um
escândalo de arrecadação
de seu governo seja esclarecido. O Ganhe Já
consistia numa loteria em que o cidadão
trocava notas fiscais por cupons que lhe davam
o diereito de concorrer a prêmios - geladeira,
bicicleta, mochila. Transcrevo a manchete e
o começo de uma reportagem do JN, Jornal
de Natal, de 21 de novembro de 1994:
"A Falência do Ganhe
Já e o Arrocho Fiscal. A campanha do
Ganhe Já, denunciada sistematicamente
por este jornal como uma farsa, que vendia uma
falsa realidade do Rio Grande do Norte (tendo
inclusive motivado a decisão do JN a
não publicar quqlaquer anúncio
da campanha), faliu sem jamais ter alcançado
seu objetivo, aumentar a arrecadação
do Estado. Foi apenas um sangradouro de dinheiro
que financiou a Dumbo Publicidade e fornecedores
e levou o Erário a esvaziar-se a ponto
de o Estado não ter dinheiro em caixa
sequer para o pagamento da folha do funcionalismo."
O semanário JN vendia 7.500
exemplares (nada mal para uma cidade do tamanho
de Natal). A reportagem a seguir ilustra bem
o que estava por atrás do Ganhe Já:
"O empobrecimento do Estado,
que tem hoje uma legião de 1 milhão
de flagelados (...), se deu na exata medida
do enriquecimento de 'amigos do peito' do governador,
com destaque para os proprietários da
Dumbo Publicidade, responsável pela farsa
do Ganhe Já, que manteve quase toda a
imprensa amordaçada durante os quatro
anos de governo pefelista."
A Dumbo Publicidade não
tocava o dito programa de arrecadação
com zelo, como mostra o JN de 28 de novembro
de 1994:
"Como tudo que cercou o Ganhe
Já antes de sua falência total,
a participação da empresa Informe
Prestação de Serviços Ltda.,
terceirizada pela Dumbo Publicidade para executar
a campanha, também é um mistério.
E dos mais nebulosos. Contratada sem licitação,
depois que o então secretário
de Fazenda Manoel Pereira anulou inexplicavelmente
a concorrência que havia sido aberta justamente
para se escolher a firma que iria trabalhar
no Ganhe Já, a Informe viveu sempre nas
sombras."
José Agripino nunca processou
o JN pelas denúncias.
(...)
Apuração
Estive em Natal na segunda metade
de fevereiro passado. Durante uma semana consegui
entrevistar apenas três pessoas (e todas
sem se identificar) sobre o Rabo-de-Palha e
o Ganhe Já. Ninguém quer tocar
no assunto. Fácil explicar: a família
de José Agripino, líder do DEM
(ex-PFL) no Senado, controla cinco rádios
e uma emissora de televisão, a TV Tropical
(afiliada da Record); Iberê Ferreira de
Souza, seu ex-secretário, é vice-governador
e secretário de Recursos Hídricos,
auxiliar justamente da governadora Wilma de
Faria, ex-mulher de Lavoisier Maia e secretária
de Promoção Social de José
Agripino que, caso vencesse Garibladi Filho
no pleito de 1985, se tornaria a maior beneficiária
do Rabo-de-Palha.
Tem mais, muito mais: Álvaro
Alberto, financiador de campanha envolvido no
esquema, é um sujeito muito rico. Foi
dono da falida Associação de Poupança
e Empréstimo do Rio Grande do Norte (Apern),
hoje preside a Companhia Hipotecária
Brasileira (CHB), empresa de obtenção
de crédito com atuação
em todo o país. O próprio resultado
da eleição de 1985 ajudou o caso
a cair em esquecimento: Garibaldi Filho, hoje
presidente do Senado, venceu o pleito, ajudado
pela exposição doe scândalo
pouco antes da eleição. Ou seja:
ganhou a eleição, para que contestar
o resultado? Outra ironia: Garibladi Filho e
José Agripino hoje estão aliados,
Costumam cumprir agenda, percorrendo juntos
o Estado.
O Rabo-de-Palha é tabu em
Natal, cidade onde nasci e cresci ouvindo em
casa, na escola, na rua a história das
"feirinhas do Centro de Convenção"
de que falava Agripino. O mesmo acontece com
o Ganhe Já. Como todo lugar em que as
oligarquias dominam a política e contorlam
os veículos de informação,
ese tipo de assunto fica restrito à casa
dos envolvidos. O que faz sentido: não
existe lugar mais apropriado para lavar a roupa
suja.
TAL PAI
Cinqüenta e cinco deputados
federais (10,7 por cento da casa) detêm
concessões de radiodifusão. O
Rio Grande do Norte encabeça o rol de
maiores detentores: metade da sua bancada.
O deputado potihuar Felipe Maia
(DEM), 34 anos, filho de José Agripino
e neto do velho Tarcísio, possui cotas
nas rádios A Voz do Seridó e Rádio
Curimatau de Nova Cruz. Chama atenção
o valor das cotas: 32 reais. A declaração
de bens do parlamentar em 2006 mostra que sua
participação na Rádio Curimatau
é de apenas 10 reais; na outra, investiu
mais alto: 22 reais.
A maior parte de seus quase 4 milhões
de reais declarados está numa de suas
oito contas do Fundo de Investimentos Sudameris.
Felipe tem apartamentos em bairro chique, empresa
de revenda de motos, contas em fundos de investimentos.
E ainda a Comav, que, mediante concessão
pública, transporta o combustível
que abastece aeronaves no aeroporto de Parnamirim
(Grande Natal).
Felipe Maia tem participação,
também, na emissora de televisão
do pai, a TV Tropical (afiliada da Record),
com 2.000 reais de cotas. O artigo 54 da Constituição
diz que deputados e senadores não podem
ter participação no tipo de empresa
em que Felipe Maia atua: concessionárias
da administração pública.
E na Câmara dos Deputados ele é
suplente do Conselho de Ética e Decoro
Parlamentar...
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