Fajardo: Serra não deixou Sindicato participar da investigação

29/04 - 16h15

METROVIÁRIOS: METRÔ TENTA JUSTIFICAR ACIDENTE DA LINHA 4

 

Uma reportagem do jornal O Estado de S. Paulo desta terça-feira, dia 30, trata de dois relatórios que indicariam a necessidade de uma escavação maior na obra da Linha 4 do Metrô (clique aqui). A estação foi escavada a 30 metros e o ideal seria, segundo os relatórios, uma escavação de 35 a 45 metros.

O presidente da Federação Nacional dos Metroviários Wagner Fajardo disse em entrevista ao Conversa Afiada que essa parece ser mais uma justificativa técnica para o acidente (clique aqui para ouvir).

Fajardo questiona o modelo do contrato utilizado na obra (“turn key”) e o fato de até hoje ninguém ter sido responsabilizado pelo acidente, que aconteceu no dia 12 de janeiro de 2007.

“É óbvio que, nesse caso, há uma tentativa, na nossa opinião, de justificar tecnicamente o desabamento. E, na nossa opinião, não tem nenhuma indicação aqui de quem mesmo foi o responsável pelo desabamento... Nós entendemos que a responsabilidade do problema não está nessa pedra, não está na profundidade, mas está, principalmente, naqueles que tomaram essas decisões sem seguir eventuais orientações técnicas”, disse Fajardo.

Wagner Fajardo também reclama do fato de os metroviários serem impedidos da comissão que investiga o acidente. “Embora tenhamos solicitado, o governador José Serra, na época, não abriu a possibilidade do Sindicato participar do processo investigatório”, disse Fajardo.

Leia a íntegra da entrevista com Wagner Fajardo:

Conversa Afiada – O jornal O Estado de S. Paulo publica hoje uma reportagem em que fala de dois relatórios que indicariam a necessidade de uma escavação maior na obra da Linha 4 do Metrô. A estação foi escavada a 30 metros e o ideal seria uma escavação de 35 a 45 metros. Sobre esse assunto eu converso agora com o presidente da Federação Nacional dos Metroviários e secretário-geral do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, Wagner Fajardo. Fajardo, Vocês metroviários tinham conhecimento desses relatórios apontados pelo Estadão e dessa necessidade de uma escavação mais profunda na obra da Linha 4?

Wagner Fajardo – Não, nós não tivemos conhecimento. Estamos tomando conhecimento desse relatório agora. O estranho é que um dos autores de um dos relatórios é o mesmo que encontrou a tal da pedra grande, que teoricamente eles afirmam ter feito a movimentação do terreno que provocou o desabamento. Mas nós não tínhamos nenhum conhecimento dessa informação até agora. E mesmo dentro do Metrô nunca ouvimos nenhuma informação a esse respeito.

Conversa Afiada – Por que você diz que é estranho um dos autores de um dos relatórios ser o mesmo que encontrou a chamada pedra grande?

Wagner Fajardo – Porque ele foi contratado pelo Consórcio. E é óbvio que, nesse caso, há uma tentativa, na nossa opinião, de justificar tecnicamente o desabamento. E, na nossa opinião, não tem nenhuma indicação aqui de quem mesmo foi o responsável pelo desabamento. De quem é a responsabilidade? Quer dizer, o que nós sabemos é que o Governo Geraldo Alckmin fez uma contratação por um serviço em contrato fechado, o chamado “turn key”, que, na nossa opinião, tirou do corpo técnico do Metrô a capacidade e a possibilidade de fazer o acompanhamento adequado da obra, inclusive evitando ou analisando todos os passos dela, inclusive o seu projeto executivo ou as mudanças nele, como foram realizadas. Então, portanto, nós entendemos que a responsabilidade do problema não está nessa pedra, não está na profundidade, mas está, principalmente, naqueles que tomaram essas decisões sem seguir eventuais orientações técnicas. Mas não é só isso. O que deveria ter sido feito lá que não foi feito e provocou o desabamento?

Conversa Afiada – E vocês entendem que o que deveria ter sido feito e não foi feito, por exemplo, pode ter sido essa escavação mais profunda? A minha pergunta é a seguinte: uma escavação mais profunda, conforme apontariam esses relatórios, daria mais segurança a obra? Evitaria o acidente?

Wagner Fajardo – É o que afirmam os técnicos. Eu não tenho certeza se esse foi o motivo do desabamento da estação Pinheiros. Nós não conhecemos ainda o relatório técnico e os relatórios emitidos pelo IPT e pelo Ministério Público da investigação do acidente. Por enquanto, nós estamos tendo acesso apenas à investigação feita pelo Consórcio. Eu não sei qual o nível de responsabilização nem do Metrô e muito menos das empreiteiras nesse processo. Por enquanto, nós temos um lado só se pronunciando. Não temos ainda o resultado da investigação.

Conversa Afiada – Segundo essa reportagem do Estadão, o Metrô disse que a responsabilidade pela elaboração do projeto, inclusive a profundidade da escavação, é do Consórcio Via Amarela. O sindicato concorda com esse argumento de que a responsabilidade é toda do Consórcio?

Wagner Fajardo – Pelo modelo de contrato elaborado, isso é verdade, o que o Metrô está dizendo. Por isso é que nós contestamos o modelo de contrato. Porque se fosse no modelo anterior, o Metrô teria obrigação de verificar como estava sendo construído. Como o modelo foi entregue e era um pacote fechado, era uma porteira fechada, o nível de interferência do corpo técnico do Metrô é muito menor, é praticamente nulo. Então, o Consórcio e a construtora fazem exatamente aquilo que ela achar que é mais adequado.

Conversa Afiada – Fajardo, como andam as investigações, em que fase estão as investigações do acidente?

Wagner Fajardo – Olha, a última informação é aquela que nós tivemos dos jornais. O Ministério Público ainda não deu seu parecer final. Há poucos dias, questão de menos de um mês atrás, o promotor deu algumas pistas de como estava caminhando a investigação, mas até agora nós não temos notícias de quando é exatamente que o Ministério Público vai concluir as investigações. Nós esperamos e estamos torcendo para que isso seja feito logo. Até porque tem muitas famílias que foram prejudicadas, não só pelas mortes que ocorreram lá, que são as mais graves, que são as mais sentidas, mas nós precisamos responsabilizar, inclusive, pelos prejuízos que a população no entorno sofreu com aquele acidente.

Conversa Afiada – E como vocês, metroviários, avaliam o andamento dessas investigações?

Wagner Fajardo – Nós tivemos pouca possibilidade de participar desse processo. Inclusive nós não fazemos parte de nenhuma equipe. A única coisa que nós fizemos foi fornecer, na época, as poucas informações que nós dispúnhamos, mas nós não conseguimos fazer parte do processo investigatório, inclusive por ser uma região e um local, e a forma como foi conduzido o processo, nós, embora tenhamos solicitado, o governador José Serra, na época, não abriu a possibilidade do Sindicato participar do processo investigatório.

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