Ramonet: A imprensa diária está morrendo ?
29/outubro/2009 9:13
O Conversa Afiada reproduz o artigo de Ignácio Ramonte, veiculado originalmente no site da Agência Carta Maior:
A IMPRENSA DIÁRIA ESTÁ MORRENDO?
O que é que agrava tão letalmente a velha decadência da imprensa escrita quotidiana? Um fator conjuntural: a crise econômica global que provoca a redução da publicidade e a restrição do crédito. E que, no momento mais inoportuno, se veio somar aos males estruturais do setor: a mercantilização da informação, o apego à publicidade, a perda de credibilidade, a queda de assinantes, a competência da imprensa gratuita, o envelhecimento dos leitores… Dezenas de diários estão em queda. Nos Estados Unidos já fecharam pelo menos cento e vinte. E o tsunami golpeia agora a Europa. O artigo é de Ignácio Ramonet. (Carta Maior)
Ignácio Ramonet
O desastre é enorme. Dezenas de diários estão em queda. Nos Estados Unidos já fecharam pelo menos cento e vinte. E o tsunami golpeia agora a Europa. Nem sequer se salvam os outrora considerados `jornais de referência`: El País na Espanha, Le Monde na França, The Times e The Independent no Reino Unido, Corriere della Sera e La Repubblica na Itália, etc.
Todos eles acumulam fortes perdas econômicas, baixa da difusão e queda da publicidade (1).
O prestigiado New York Times teve que solicitar a ajuda do milionário mexicano Carlos Slim; a empresa editora de The Chicago Tribune e de Los Angeles Times, assim como a Hearst Corporation, dona do San Francisco Chronicle, caíram na bancarrota; News Corp, o poderoso grupo multimédia de Rupert Murdoch que publica o Wall Street Journal, apresentou perdas anuais de 2,5 bilhões de euros…
Para cortar despesas, muitas publicações estão reduzindo o número de páginas; o Washington Post fechou o seu prestigiado suplemento literário Bookworld; o Christian Science Monitor decidiu suprimir a sua edição em papel e existir só na Internet; o Financial Times propõe semanas de três dias aos seus redatores e reduziu drasticamente o número de trabalhadores. As demissões são em massa. Desde janeiro de 2008 foram suprimidos 21.000 empregos nos jornais norte-americanos. Na Espanha, `entre Junho de 2008 e Abril de 2009, 2.221 jornalistas perderam o seu posto de trabalho` (2).
A imprensa diária escrita encontra-se à beira do precipício e procura desesperadamente fórmulas para sobreviver. Alguns analistas consideram obsoleto esse modo de informação. Michael Wolf, da Newser, prevê que 80% dos diários norte-americanos desaparecerão (3). Mais pessimista, Rupert Murdoch prevê que, na próxima década, todos os diários deixarão de existir…
O que é que agrava tão letalmente a velha decadência da imprensa escrita quotidiana? Um fator conjuntural: a crise econômica global que provoca a redução da publicidade e a restrição do crédito. E que, no momento mais inoportuno, se veio somar aos males estruturais do setor: a mercantilização da informação, o apego à publicidade, a perda de credibilidade, a queda de assinantes, a competência da imprensa gratuita, o envelhecimento dos leitores…
Na América Latina acrescenta-se a isto as necessárias reformas democráticas empreendidas por alguns governos (Argentina, Equador, Bolívia, Venezuela) contra os `latifúndios midiáticos` de grupos privados em situação de monopólio. Esses grupos desencadearam, contra esses governos e os seus presidentes, uma campanha de calúnias difundidas pelos rancorosos meios de comunicação dominantes e pelos seus cúmplices habituais (na Espanha: o diário El País, que passou a atacar o primeiro ministro José Luis Rodriguez Zapatero) (4).
A imprensa diária continua a praticar um modelo econômico e industrial que não funciona. O recurso à construção de grandes grupos multimídia internacionais, como aconteceu nos anos 1980 e 1990, já não serve perante a proliferação dos novos meios de difusão da informação e do lazer, pela Internet ou pelos telemóveis (5).
Paradoxalmente, nunca os diários tiveram tanta audiência como atualmente. Com a Internet, o número de leitores cresceu de forma exponencial (6). Mas a articulação com a Rede continua a falhar. Porque estabelece uma injustiça ao obrigar o leitor do quiosque, o que compra o diário, a subsidiar o leitor da tela que lê gratuitamente a edição digital (mais extensa e agradável). E por que a publicidade da versão web não compensa, ao ser muito mais barata que na versão de papel (7). Perdas e ganhos não se equilibram.
Caminhando às cegas, os jornais procuram desesperadamente fórmulas para enfrentar a hipermudança e sobreviver. Seguindo o exemplo do iTunes, alguns pedem micro-pagamentos aos seus leitores para deixá-los aceder em exclusivo às informações online (8). Rupert Murdoch decidiu que, a partir de Janeiro de 2010, exigirá pagamento por qualquer consulta do Wall Street Journal mediante qualquer tecnologia, sejam os telefones Blackberry ou iPhone, Twitter ou o leitor electrônico Kindle. O motor de busca Google está pensando numa receita que lhe permita cobrar por toda a leitura de qualquer diário digital e reverter uma parte à empresa editora.
Bastarão essas medidas para salvar o doente terminal? Poucos acreditam nisso (leia-se o artigo de Serge Halimi `O combate do Le Monde Diplomatique`). Porque a tudo o que se disse acima soma-se o mais preocupante: a perda da credibilidade. A obsessão atual dos diários pelo imediatismo leva-os a multiplicar os erros. O demagógico apelo ao `leitor jornalista` para que coloque na web do seu jornal o seu blog, as suas fotos ou os seus vídeos, aumenta o risco de difundir erros. E adotar a defesa da estratégia da empresa como linha editorial (coisa que hoje fazem os diários dominantes) conduz à imposição de uma leitura subjetiva, arbitrária e partidária da informação.
Frente aos novos `pecados capitais` do jornalismo, os cidadãos sentem-se vulneráveis nos seus direitos. Sabem que dispor de informação confiável e de qualidade é mais importante que nunca. Para eles e para a democracia. E interrogam-se: onde procurar a verdade? Os nossos leitores assíduos conhecem (uma parte de) a resposta: na imprensa realmente independente e crítica; e obviamente, nas páginas do Le Monde Diplomatique.
Artigo publicado em rebelion.org, traduzido para o português por Carlos Santos, do site Esquerda.Net.
Notas:
(1) Inés Hayes, `En quiebra los principales diarios del mundo`, América XXI, Caracas, Abril de 2009.
(2) Segundo a Federação de Associações de Jornalistas de Espanha, Madrid, 13 de Abril de 2009.
(3) The Washington Post, 21 de Abril de 2009.
(4) Sobre os ataques de El País contra Zapatero, leia-se Doreen Carvajal, `El País in Rare Break With Socialist Leader`, The New York Times, 13 de Setembro de 2009. Versão em espanhol: internautas.org
(5) Luis Hernández Navarro, `La crisis de la prensa escrita`, La Jornada, México, 3 de Março de 2009.
(6) Leia-se o informe: `Newspapers in Crisis`: emarketer.com
(7) Em 2008, la audiência do New York Times na Internet foi dez vezes superior à da sua edição impressa, mas os seus ganhos em publicidade na Rede foram dez vezes inferiores aos da edição de papel.
(8) Leia-se: Gordon Crovitz, `El futuro de los diarios en Internet`, La Nación, Buenos Aires, 15 de Agosto de 2009, e El País, Madrid, 11 de Setembro de 2009.
Publicado originalmente: Carta Maior – 24/10/2009.
19 Comentários para “Ramonet: A imprensa diária está morrendo ?”
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Nesse mundo, é ótimo quando fazemos as escolhas profissionais mais acertadas.
Olá, Paulo e internautas.
Quem cavou a cova da grande imprensa foi ela mesma, isto não significa que precisa esperar pelo enterro, como no comentário do Valente “voltar ao fundamento básica do jornalismo: INFORMAR”, mas informar com isenção que, sem demagogia, sabemos que há muito não se vê.
Se renderam o imediatismo do lucro momentâneo e continuaram a fazê-lo mesmo com o advento das novas tecnologias e não tiveram visão para entender o que a internet traria para o cidadão comum, a liberdade.
Sim, a liberdade, tanto de procurar pela verdade como a de interagir com os “donos” da informação, isso é caminho sem volta e é bom para o crescimento do conhecimento humano, óbviamente, é perigoso num primeiro instante quando se pensa que as pessoas podem acreditar em qualquer coisa que estiver lendo, mas é o mesmo perigo que ocorre ao acreditar na grande imprensa, não acham?
Só resistirá aos novos tempos quem for isento, uma espécie de seleção natural, pois mesmo considerando a má qualidade na educação acadêmica das pessoas, uma coisa é inegável, todas elas possuem inteligência para tirar suas próprias conclusões, basta que tenham parâmetros e possam comparar dois pontos de vistas antagônicos.
“Fiquei imaginando as pilhas e pilhas de editoriais impressos durante décadas condenando o papel do Estado nas economias. De repente, é ao estado que os barões da mídia cogitam recorrer para não vê os seus negócios afundarem no livre mercado. Para reflexão geral.”
Eu também.
Se pesquisarem, descobrirão que quem ainda compra jornalão de papel tem mais de 40 anos e se acostumou a ler sujando as pontas dos dedos.
… coisa mais obsoleta.
Olá PHA, tudo bem?
Pergunto: Quem publicará o epitáfio da imprensa, digo (PIG)?
E alerto: Fiquem atentos a I CONFECOM a ser realizada em dezembro. Preparem-se, pois será um guerra sangrenta, com os lobbys tentando boicotar este grande evento. Haja visto que quase nenhum veículo está divulgando o evento e por isto apelo a vocês para se manterem atentos.
Bye Bye PIG!
Vou comemorar quando a Folha=Mosca chegar aà“morte”, será o fim das pesquisas tendenciosas, manipulação e opinões desastrosas do PIG
que seja verdade: A IMPRENSA DIÁRIA ESTÁ MORRENDO POR CONSEGUINTE A FOLHA.
Aqui em São Paulo o governo tem suprido as perdas da imprensa das mais variadas formas: com todas as escolas públicas estaduais assinando a Folha e o Estadão e as compras sem licitação de material da Editora Abril (que aliás ganhou uma estação de trem na porta e está prestes a ganhar outra de metrô – no único lugar onde tais transportes se cruzam)
Serrá* por isso o conteúdo quase panfletário desses jornais e da revista Veja?
Depois dos teleglobobos serem considerados um bando de HOMER’s,
a imprensa ou muda ou perde como está ocorrendo, crédito, leitores e
telespectabobos. A rede globobo perde até anunciantes sem rabo preso.
Será que o governo tem?
O papel não tem mais futuro. A notícia será eletrônica, nua e crua. Quem
gosta de maquiagem, seja telegloboboca para sempre, e viva num mun-
-do irreal, enquanto é explorado de todas as formas, porém sorridente
idiota e feliz.
se o globo falir soltarei foguets!
O Pig só não vestiu o paletó de madeira por dois motivos:
1- A Vesga agora é de propriedade do grupo nazista Naspers da África do Sul, que tem grana para caramba (por que a Carta Capital e os meios de comunicação fora do pig não fazem uma reportagem com isso eu ainda não sei)
2- O resto do pig, que não teve a “felicidade” da Abril de ter as ações adquiridas por nazistas, recebe ajuda financeira do Fuhrer brasileiro e seu partideco. Serrote adora dar dim dim para Folha e Globo.
Pelo que já sabemos o pig está na bancarrota faz tempo, faltando apenas cerrar as portas, e para isto o serra ajuda.
PHA,
A tal da “censura” do Estadão já se tornou até inconstitucional, sem mesmo se discutir se é ou não censura! Mais uma divindade do decanato judiciário nacional se pôs a serviço do PiG, declarando que: “Basta a leitura do artigo 220 para verificar que o legislador constituinte exprimiu a hostilidade do ordenamento constitucional a qualquer forma de embaraço à plena liberdade de informação jornalística e proibiu censura política, ideológica e artística.” Uma leitura fragmentada e indigna de um ministro do STF, pois exclui os direitos individuais dos cidadãos, curvando-se à força do PiG.
Veja em: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091029/not_imp458123,0.php
Agora o leitor tornou-se independente e forma sua opinião selecionando o que é leitura de conteúdo e descarta as manipulações.
O povo se conscientizou que os concessionários de TV, comportam-se como donos da notícia, como poderosos.
A notícia é democrática, universal não tem dono, ela tem que ter conteúdo, ser imparcial, projetar a verdade das partes e colaborar com a justiça social.
O fato, o informante e o informando
Sobre o Fato o Informando quer duas coisas que o Informante (mídia em falência) não pode dar:
O fato no fato e pelo fato, não pela opinião sobre o fato.
A tiragem de 24 entre os 25 maiores jornais dos EUA diminuiu desde o ano passado. Alguns barões da mídia norte-americanos estão fazendo lobby por ajuda estatal. Leiam os artigos publicados ontem na excelente Der Spiegel (edição internacional):
http://www.spiegel.de/international/world/0,1518,657941,00.html
http://www.spiegel.de/international/spiegel/0,1518,657957,00.html
Fiquei imaginando as pilhas e pilhas de editoriais impressos durante décadas condenando o papel do Estado nas economias. De repente, é ao estado que os barões da mídia cogitam recorrer para não vê os seus negócios afundarem no livre mercado. Para reflexão geral.
O problema maior dos jornais impressos é que insistem em tentar fazer um jornal diário, repercutindo matérias que são do conhecimento das pessoas via TV, rádio e internet. Os jornais deveriam simplificar os textos, aprofundar os temas do cotidiano e ser mais investigativo. Os donos de jornais ainda não perceberam que a informação foi democratizada com as novas fontes de informação que a internet oferece (sites,blogs, etc..). Antigamente você comprava um grande jornal (folha,o globo, estadão) e achava que as informações eram suficientes para formar sua opinião. Agora, não! são tantas opiniões diversas, tantos ângulos de intepretações, que o cidadão tornou-se mais exigente no seu conceito de leitura e intepretação dos fatos.
Boa a análise do Valente (29/outubro/2009 as 10:19 ).
Se praticarem JORNALISMO, terão alguma chance de sobreviver.
Os que insistirem em manipular, distorcer, mentir, deturpar,… sonegar informações, sucumbirão.
Editoriais serão o suficiente para manifestar opinião sobre os fatos.
A CRISE DO ‘REAL TIME’
Se me permitem, há algo mais profundo nessa História que acarreta a crise midiática e que está além das hipóteses descritivas apontadas pelo Ramonet.
A mídia no neoliberalismo exerce um papel fundamental, que é a disseminação do ‘pensamento único’ tornando-o hegemônico enquanto ideologia. Tal fato se dá principalmente pela ausência de um pensamento cientificamente aceito que o justifique (o que seria inaceitável na sociedade modernista baseada no iluminismo), razão pela qual o contexto da ‘realidade’ (?) migrou dos órgãos científicos para os órgãos de mídia, confirmando a essência ideológica do neoliberalismo.
Mas, como a mídia legitimou-se como órgão de percepção e difusão da ‘realidade’?
Simples, através do ‘real time’, da noção de que a ‘realidade’ é imediata, descontextualizada e a-histórica, perceptível em ‘drops’ (brevíssimas narrativas de jornal). Portanto, através da aceleração do quotidiano a mídia se tornou senhora da ‘realidade’ e das vidas humanas.
Contudo, avaliando esse movimento através da dialética histórica, pode-se perceber que a aceleração do quotidiano que legitimou o aprisionamento da realidade no seu discurso instantâneo, hoje é a razão da impossibilidade da mídia tradicional acompanhar essa mesma imediatidade. Percebe-se que a sua própria noção de imediatidade está equivocada – a mídia quer ser instantânea, mas não consegue sequer compreender do que se trata!
Essa é uma das possibilidades de abordagem do problema da mídia na sociedade atual.
Contudo, por certo, devemos compreender a dialeticidade dos movimentos históricos para entendermos os mecanismos de ascensão e queda da instancias discursivas de legitimação das ideologias.
Ao veículos de comunicação em massa, na minha opinião, resta o retorno às origens. Isto significa dizer que precisam voltar ao fundamento básica do jornalismo: INFORMAR.
Jornais como Folha e Estadão, por exemplom lá no passado eram veículos prestigiadíssimos, foram o supra-sumo da informação, assim se tornaram grandes, porém, com o tempo, fascinados com a teoria democrática-liberal, assumiram ideologia, que se acentuou com a queda do muro de Berlin. Parecia que o mundo viveria então um só modelo político, que todos os cidadão se robotizariam em torno de uma só ideologia. Mas subestimaram que a sociedade é formada por grupos, que estes grupos defendem sua comunidade, como as comunas da teoria comunista. Então foram para o tudo o nada, tentaram e tentam “catequisar” dos as suas idéias, dai confundi-los hoje com partidos políticos, não é eresia. Acho que para aqueles que ainda desejam ser lidos nos quiosques, bares, cafés, salões, etc, precisam jogar a toalha e se moldar ao múnus da informação, deixar que a liberdade individual de cada assuma sua ideologia. O rémédio para a salvação, de alguns, segundo minha opinião é passar a informar apenas, colocar a notícia nua e crua e, se preferirem, criarem um espaço a parte para opiniões, deixando claro o objetivo das mesmas.